domingo, 17 de outubro de 2010

Querido Augusto,

Só o que restou de você nesta casa foi uma escova de dentes velha, um pijama amassado e algumas fotos digitais. Coloquei tudo em uma sacola, menos as fotos. Desculpa, mas elas estão presas na tela, tão longe e tão mentirosas, guardadas em pastas metodicamente organizadas. Fico aqui impotente vendo tudo e nem posso tocar seus lábios com dedos suaves e unhas vermelhas. Uma mísera seta e um duplo clique chegam mais perto deles do que eu. Porque são fotografias e nem dá para fazer um pôster gigante, para colocar no meu altar com santos milagrosos e mártires miseráveis. Não posso, culpa dos granulados sujos que nunca quis ver em você. Não gostava de imagens grandes, porque eu tinha tudo em tamanho real e de verdade. Bobinha.

Augusto, se essas imagens estivessem em papel, cortaria sua cabeça com uma tesoura de ponta – a mesma que enfiaria no seu rim se você estivesse aqui. Estaríamos quites. Mas, só me resta as malditas digitais. Colocarei na sacola: escova, pijama, disquete e também aquele livro com dedicatória mentirosa que você me deu. Pegue com o porteiro.

Não sei se sua, Carmen.