segunda-feira, 1 de março de 2010

"Podemos agora compreender melhor o abismo que separava Sabina e Franz: ele a escutava falar de sua vida avidamente e ela o ouvia com a mesma avidez. Compreendiam exatamente o sentido lógico das palavras que pronunciavam, mas sem ouvir o murmúrio do rio semântico que corria entre as palavras.
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Enquanto as pessoas são ainda mais ou menos jovens e a partitura de suas vidas está somente nos primeiros compassos, elas podem fazer juntas a composição e trocar os temas (como Tomas e Sabina haviam trocado o tema do chapéu-coco), mas quando se encontram numa idade mais madura, suas partituras musicais estão mais ou menos terminadas, e cada palavra, cada objeto, significa algo de diferente na partitura do outro.
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Era, porém, a traição e não a fidelidade que seduzia Sabina.
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A traição. Desde nossa infância, papai e o professor nos repetem que é a coisa mais abominável que se possa conceber. Mas o que é trair? Trair é sair da ordem. Trair é sair da ordem e partir para o desconhecido. Sabina não conhece nada mais belo que partir para o desconhecido.
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Mas se trairmos B., por quem tínhamos traído A., isso não que dizer que vamos nos reconciliar com A. A vida do artista de quem se divorciara não se parecia com a vida de seus pais traídos. A primeira traição é irreparável, ela provoca, numa reação em cadeia, outras traições das quais cada uma nos distancia cada vez mais do motivo da traição inicial.
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Já conhecemos a resposta: quando ela traiu seu pai, abriu diante de si uma longa estrada de traições e cada nova traição a atraía como um vício ou como uma vitória. Ela não quer ficar dentro da ordem e nela não ficará! Não ficará sempre na ordem com as mesmas pessoas e as mesmas palavras! É por isso que está transtornada com sua própria injustiça. Esse sentimento não é desagradável, ao contrário, ela tem a impressão de ter conseguido uma vitória e sente como se um personagem invisível a aplaudisse.
Mas a embriaguez logo se transforma em angústia. Era preciso um dia chegar ao fim da linha! Era preciso um dia terminar com essas traições! Era preciso parar de uma vez por todas!
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Para Sabina, viver dentro da verdade, não mentir nem para si nem para os outros, só seria possível se vivêssemos sem público. Havendo uma única testemunha de nossos atos, adaptamo-nos de um jeito ou de outro aos olhos que nos observam, e nada mais do que fazemos é verdadeiro. Ter um público, pensar no público, é viver na mentira. Sabina despreza a literatura em que o autor revela toda a sua intimidade, e também a de seus amigos. Quem perde sua própria intimidade perde tudo, pensa Sabina. E quem a ela renuncia conscientemente é um monstro. Por isso Sabina não sofre por ter de esconder seu amor. Ao contrário, para ela esta é a única forma de viver “dentro da verdade”.
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O drama de uma vida pode sempre ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo sobre os ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não. Lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. O que precisamente aconteceu com Sabina? Nada. Deixara um homem porque quis deixá-lo. Ele a perseguira depois disso? Quis vingar-se? Não. Seu drama não era de peso, mas de leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser.
Até então, os momentos de traição a excitavam, a idéia da nova estrada que se abria e a aventura sempre nova da traição que a esperava no fim da viagem enchiam-na de alegria. Mas o que aconteceria se a viagem terminasse? É possível trair os pais, o marido, um amor, uma pátria, mas o que sobraria para trair quando não houvesse nem pais, nem marido, nem amor, nem pátria?
Sabina sentia o vazio em torno de si. E seria esse vazio o objetivo de todas as suas traições?
Até aqui, não tinha consciência disso, o que é compreensível: a meta que perseguimos é sempre velada. (..) Aquilo que dá sentido à nossa conduta sempre nos é totalmente desconhecido. Sabina também ignorava que o objetivo está oculto por trás de seu desejo de trair. A insustentável leveza do ser, seria esse o objetivo? Desde sua partida de Genebra, aproximou-se terrivelmente dele.
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Quando lhe falara de seus passeios pelos cemitérios, ele ficara impressionado e comparara os cemitérios a depósitos de ossos e pedras. Nesse dia abriu-se entre eles um abismo de incompreensão. Hoje, no cemitério de Montparnasse, ela finalmente compreendera o que ele queria dizer. Lamentou ter sido impaciente. Se tivessem ficado juntos mais tempo, talvez pouca a pouco as palavras de um tivessem começado a ser compreendidas pelo outro. Seus vocabulários se teriam aproximado com pudor, lentamente, como amantes muito tímidos, e a música de um começaria a se fundir com a música do outro. Mas era tarde demais.
Sim, era tarde demais e Sabina sabe que não ficará em Paris, que irá mais longe porque, se morresse aqui, ficaria presa sob uma pedra, e uma mulher que não pode ficar imóvel não suporta nunca a idéia de ser retida em seu caminho.
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Tereza sabe que é mais ou menos assim o instante em que nasce o amor: a mulher não resiste à voz que chama sua alma amedrontada; o homem não resiste à mulher cuja alma se torna atenta à sua voz. Tomas nunca está seguro da armadilha do amor e Tereza só pode tremer por ele a cada hora, a cada minuto.
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Muitas vezes nos refugiamos no futuro para escapar do sofrimento. Imaginamos uma linha na pista do tempo, e pensamos que a partir dessa linha o sofrimento presente deixará de existir. Mas Tereza não via essa linha diante de si. Só podia encontrar consolo olhando para trás. Mais uma vez era domingo; tomaram o carro e foram para longe de Praga.
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Ora, então não era verdade que o comunismo perseguia a arte moderna?
Respondeu enraivecida: - Meu inimigo não é o comunismo, meu inimigo é o kitsch!
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Escreveu, então, um testamento determinando que seu cadáver seja cremado, e as cinzas espalhadas ao vento. Tereza e Tomas morreram sob o signo do peso. Ela quer morrer sob o signo da leveza. Será mais leve que o ar. Como diria Parmênides, é a transformação do negativo em positivo.
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Os cães não têm muitas vantagens em relação ao homem, mas uma delas é extremamente importante: para eles, a eutanásia não é proibida por lei; o animal tem direito a uma morte misericordiosa. (...) Tereza e Tomas concordavam: não tinham direito de deixar o animal sofrer inutilmente. Mas o acordo sobre esse princípio não os poupava de uma angustiante incerteza. Como saber em que momento o sofrimento se torna inútil? Como determinar o instante em que não vale mais a pena viver?
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É tão duro assumir o papel da morte! Há muito tempo, Tomas declarara que não aplicaria a injeção, chamaria o veterinário. Mas afinal compreendeu que poderia conceder a Karenin um privilégio que não está ao alcance dos seres humanos: a morte chegaria para ela sob a máscara daqueles que amava.
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O horror é um choque, um instante de total cegueira. O horror é desprovido de qualquer traço de beleza. Só vemos a luz violenta do acontecimento desconhecido que esperamos. Ao contrário dele, a tristeza supõe o conhecimento. Tomas e Tereza sabiam o que os esperava. O brilho do horror se apagava e descobria-se o mundo sob uma luz azulada e suave que tornava as coisas mais belas do que eram antes.
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Mentalmente ela sempre o culpara de não a amar o bastante. Achava que seu amor por ele estava acima de qualquer restrição, mas que o amor dele por ela era uma simples condescendência.
Percebia agora como tinha sido injusta: se realmente tivesse amado Tomas com um grande amor, teria ficado com ele na Suíça. Lá Tomas era feliz, uma vida nova se abria diante dele! E ela o havia deixado! Ela partira! Claro, convencera-se de que fazia por generosidade, para não se transformar num peso para ele! Mas o que era essa generosidade senão um subterfúgio? Na verdade, sabia que ele voltaria, que viria procurá-la! Ela o tinha chamado, ela o tinha puxado mais e mais para baixo – como as fadas que atraem os camponeses para os pântanos e deixam que eles sejam tragados. Aproveitara o momento em que ele sentia espasmos no estômago para extrair a promessa de que iriam se instalar no interior! Como havia sido astuta! Cada vez que o aliciava para pô-lo à prova, para se assegurar de que ele a amava; ela o tinha conduzido até que ficasse assim: cinzento e cansado, com dedos semimutilados que nunca mais poderiam segurar o bisturi de cirurgião.
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Meu Deus, teria sido preciso chegar a esse ponto para ter certeza de que ele a amava!"



A insustentável leveza do ser - Milan Kundera