quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Depois que você lê uma certa quantidade de literatura decente, simplesmente não há mais nada. Nós mesmos temos que escrever. Não há entusiasmo. Talvez eu tenha lido demais. Também, depois de décadas e décadas escrevendo (e escrevi um monte), quando leio outro escritor acho que posso dizer exatamente quando ele está fingindo, a mentira salta aos olhos, as resvaladas untuosas... Posso adivinhar qual será a próxima linha, o próximo parágrafo... Não há brilho, emoção, risco. É uma tarefa que aprenderam, como consertar uma torneira que pinga

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Não há nada que ensine mais do que se reorganizar depois do fracasso e seguir em frente. Mas a maioria das pessoas fica paralisada de medo. Elas tem tanto medo do fracasso que acabam fracassando. Estão condicionadas demais, acostumadas demais que digam o que devem fazer. Começa com a família, passa pela escola e entra no mundo dos negócios.

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Alguns escritores tendem a escrever o que agradou seus leitores no passado. Daí, estão fodidos. A criatividade da maioria dos escritores tem vida curta. Ouvem os elogios e acreditam neles. Há apenas um juiz final do que foi escrito, que é o escritor. Quando é influenciado pelos críticos, editores, leitores, está acabado. E, é claro, quando for influenciado por sua fama e fortuna, você pode mandá-lo flutuando rio abaixo junto com a merda. Eu sempre disse que o trabalho de um escritor é escrever. Se eu for queimado por todos esses fajutos filhos da puta, é culpa minha. Vão puxar o saco da Elizabeth Taylor!

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Tem um problema com os escritores. Se o livro de um escritor foi publicado e vendeu um montão de cópias, o cara se acha um grande escritor. Se o livro de um escritor foi publicado e vendeu um número razoável de cópias, o cara se acha um grande escritor. Se o livro de um escritor foi publicado e vendeu muito poucas cópias, o cara se acha um grande escritor. Se o livro de um escritor nunca foi publicado e o cara não tem dinheiro suficiente pra publicá-lo por si mesmo, aí é que o cara se acha de fato um grande escritor. Mas, a verdade é que há muito pouca grandeza. Quase inexistente. Invisível. Pode estar certo de que os piores escritores são os que têm mais autoconfiança e se põem menos em dúvida. De qualquer jeito, é melhor evitar os escritores; é o que sempre tentei fazer, mas é quase impossível. Eles sonham com uma espécie de irmandade, de união. Nada disso tem coisa alguma a ver com escrever, nada disso ajuda na máquina.

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Os artistas são uns verdadeiros chatos de galocha. E míopes, ainda por cima. Quando têm êxito, acreditam na própria grandeza, por piores que sejam, e quando não têm, a culpa é sempre de alguém e não deles. Não foi por falta de talento; mesmo que sejam os piores do mundo, sempre crêem que são gênios. Se julgam melhores que Van Gogh, Mozart ou duas dúzias de outros que esticaram a canela antes de ficar com o rabinho envernizado pela FAMA. Agora, acontece que para cada Mozart existem 50.000 imbecis insuportáveis que continuam escrevendo coisas péssimas. Só os bons desistem do lance - como Rimbaud ou Rossini


Bukowski